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Começo por cumprimentá-los a todos em nome da Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro.

É impossível ignorar que entre a produção artística de uma determinada época e a situação social, cultural, religiosa, económica e política estão sempre presente relações de íntima cumplicidade levando, no estudo da história de arte, a uma obrigatória abordagem e conhecimento do meio social em que surge, na respectiva contemporaneidade. Então, a arte e o seu reflexo presente e futuro são um produto do diálogo entre ela e o ente social e o respectivo poder, sem determinismos últimos ou um condicionalismo fatal, extraindo-lhe qualquer autonomia imaginativa.

Sala 2 do Museu Dionisio PinheiroNo Museu, o objecto não perde as funções anteriores, antes ganha a capacidade de representar, contando uma história.

O objecto museológico pode ser transformado pela acção da humanidade e da natureza, que lhe conferirá novos atributos estéticos e de funcionalidade.

São estas metamorfoses que se operam neste Museu. Mutações do objecto. Um crucifixo manterá o valor de culto, no entanto, ganha o valor de exposição. Permitindo, assim, o estudo entre a humanidade e a realidade.

Sendo assim, os objectos comunicam, tal como outro bem cultural ou natural, estabelecendo relações díspares por entre o público que o admira, o examina, o ama, o deseja, o cultiva, o ignora. Igual à música do Cartola, as rosas não falam, mas roubam o perfume da mulher amada.


Daí, é essencial uma extraordinária delicadeza ao manusear os objectos, mas sem nos condenarmos ao campo do conhecimento mediático, mas elevando a nossa acção museológica ao campo da mediação da linguagem das coisas.

Porque o objecto é também facto social, memória. Imagem e reflexo. Pertença de um património alegórico porque não tem valor intrínseco, porque não é apenas material.

O nosso Património é um conjunto vasto de bens tangíveis e intangíveis, herdados, preservados, conservados e expostos, fazendo jus à qualidade de vida, cuja função ‘rememorativa’, como matriz de identidade, servindo de instrumento para o desenvolvimento e suporte social.

11Uma noção que assenta nas pessoas e no que uma dada geração considera dever ser deixado para o futuro. Como nos lembra Georges Duby, “não é estático. Move-se com o próprio movimento de Deus. Toda a experiência espiritual se vive como um avanço, como um progresso, que a música e a liturgia ao mesmo tempo acompanham e guiam, e que a arquitectura, a escultura, a pintura, embora por natureza imóveis, têm também por missão traduzir. Na verdade, este movimento é duplo. Por um lado, é circular. Os ritmos cósmicos, os percursos dos astros, o caminhar do dia e das estações, todos os crescimentos biológicos se ordenam em ciclos, e estes retornos periódicos devem ser interpretados como um dos sinais da eternidade.”

A vida dos objectos implica a experiência ininterrupta do tempo cósmico, permitindo os seus movimentos circulares, evitando qualquer acidente susceptível de os perturbar, a comunidade alcança desde logo a eternidade, testemunho de memórias, contextos de humanidade e de divindade.


Como Técnico de Conservação e Restauro e Museólogo, objectivo neste Museu uma abordagem museológica que se debruce sobre todas as questões que referi anteriormente, sempre consciente da contemporaneidade do espaço Museu e do seu lugar na sociedade contemporânea, devido tão-só, ao facto da Museologia ter reafirmado nas últimas décadas o seu valor de referência e de síntese, capaz de transformar e de oferecer modelos alternativos adequados para assinalar, caracterizar e transmitir os valores e os signos dos tempos, resgatando para o conceito de Museu o poder enquanto instituição de referência para a sociedade global, no respeito pelas diferenças e promovendo a pluralidade, segundo um diálogo de tolerância, compreensão e absorção. O outro como uma continuação do Eu e do Nós. Valores de urbanidade.

Concluindo, convido-vos a visitar este nosso Museu e a conhecer a Fundação!

Um Museu como um romance, onde os objectos são narradores e funcionam como agentes activos de memória de um qualquer quotidiano.

A linguagem museológica, a par dos textos literários, tem ritmo específico, gramática própria, sintaxe e lógica, coordenando assim a articulação entre os diversos elementos do espaço das exposições: conexão de referências várias, resultando numa lógica latente no texto expográfico que se pretende construir.

Assim, o lúdico, o pedagógico, o cultural, o social, o colectivo e o individual conjugam-se num único verbo e num único espaço: musealizar e museu.

O “sentido da vida” constitui, com toda a certeza, o eixo orgânico e vital da vida de um museu.

Poderemos dizer que o Museu viverá da eterna luta do ser humano, no cumprir de um destino feito na constante dialéctica entre o entrelaçar de fios com que se integra e o desatar de nós com que se liberta. Isto é, através do Museu, o homem cumpre o seu destino de ser errante, num constante vai e vem entre o ‘Eu’ e o ‘Nós’, o parcial e o total, o imanente e o transcendente, o horrível e o belo, entre as amarras e a libertação, uma viagem de vai e vem, onde aqui e ali tropeça na realidade e mais além se agarra à fantasia, uma viagem cujo farol é o sonho e fim último, a plenitude. Daí, que o Museu seja necessário para que o homem se torne capaz de conhecer, mas, sobretudo, mudar o mundo.

Sejam bem-vindos!