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O Conservador - Pag.3

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No entanto, como sabemos, a morte apresenta-se a Gilgamesh, sendo a origem para a grande caminhada até ao conhecimento supremo, aquele que vence o esquecimento… No encontro com Uta-Napishtim, este desafia-o a buscar a planta no fundo do oceano cujos espinhos devolvem a juventude, logo que a achou, perdeu-a para uma cobra! Assim, Gilgamesh voltou para a sua cidade e disse, “Sobe à muralha de Uruk, inspecciona o terraço das fundações e examina bem os tijolos; vê como são tijolos cozidos; não terão sido os sete sábios que assentaram estas fundações?” (Tamen, 2000, p. 74).
“Tudo isto era também obra de Gilgamesh, o rei, que conheceu os países do mundo. Ele era sábio, viu os mistérios e conheceu as coisas secretas; transmitiu-nos uma história dos dias antes do Dilúvio. Fez uma longa viagem, conheceu o cansaço, esgotou-se em trabalhos e, ao regressar, gravou numa pedra toda a história” (Tamen, 2000, p. 75)

Hoje, na prática museóloga, bebendo um pouco desta epopeia – tão-só ilustradora da realidade -, devemo-nos orientar pelos seguintes princípios:
•    Institucionalização da memória social
•    Respeito à diferença, num mundo global
•    Participação das comunidades

E acrescentarmos um ‘sisífico’11  «work in progress»12 , ou seja, trabalhar numa permanente busca, onde o conhecimento vai sendo construído. O Museu interioriza, como um ente, um enorme número de conceitos, não se limitando à apresentação de objectos, à pedagogia ou à conservação, ampliando o seu campo de vivência com grandes potencialidades socioculturais, granjeando o valor social que vem a reivindicar nas últimas décadas. Aceitando uma filosofia gnóstica na museologia, esta ‘visão de águia’ ou hipervisão permite a interdisciplinaridade que poderá servir de ponte para as margens amplas do quotidiano.

Por exemplo:
“A Literatura, a História e a Geografia convocam um projecto artístico que as transfere para o território de uma narrativa «pós-science fiction», onde a utopia se converte numa atopia, o presente revela-se uma estranha arqueologia do futuro, o museu preserva, apresenta e classifica as imagens de seres mecânicos para ele exclusivamente criados, a vegetação artificial agita-se em função da presença do espectador, o qual é confrontado com a manifestação de vestígios de uma ou varias estórias, de um ou vários contextos, suportes, linguagens, estímulos sensoriais ou cognitivos” (Leal, 2003).

A prática gnóstica da museologia é autobiográfica. Esta minha perspectiva prende-se, sem dúvida, às minhas crenças desde a infância e, com toda a certeza, do meu percurso de vida, desde os primeiros passos na alfabetização num colégio de freiras – Congregação S. José de Cluny – que recordo com carinho, desde os corredores com imagens de Cristo, da capela com uma grandiosidade extraordinária, da gruta da Imaculada Conceição, onde me refugiava à hora da sesta e me perdia por entre pedras, heras e caracóis, e sempre aquele olhar doce da imagem que tudo admirava. Depois, a capela da minha aldeia, dedicada a S. Mamede, que anunciava os dias longos aquando dos terços após o jantar durante o mês de Maio. Mais tarde, nos escuteiros, cujos encontros eram na antiga casa – Casa Museu – de José Luciano de Castro13 , Anadia, com a sua capelinha, e o acervo deslumbrante: dois painéis de retábulo, intitulados de S. Jerónimo e de Santa Helena, a imagem de Santa Ana em madeira estofada e policromada do século XVIII, o retábulo de São Gonçalo de Amarante, e um crucifixo em marfim indo-português, tudo a ‘excitar’ as emoções infanto-juvenis. E, assim, surgem as minhas explicações do mundo que vão pautando os meus tempos de vida!